quinta-feira, 5 de abril de 2012

Vovô – o comerciante


E lá vinha Vovô, todo satisfeito por voltar a encontrar-se com os Craques, depois de temporada em Fortaleza onde, segundo ele, estava promovendo uma revolução tática na forma de jogar da equipe do seu coração, o Ceará.
Na mala trouxe para vender um composto pastoso feito a partir de sebo de carneiro capado e massa de miolo da aroeira que, segundo o comerciante, é um ótimo remédio para dor muscular, fadiga óssea e manchas de pancadas.
- Gente, esse negócio aqui é uma ótima pomada para velhos como nós – revelou com aquele jeito peculiar de falar assobiando. – E cheira que só pescoço de rapariga - acrescentou levantando o produto por sobre a cabeça.
- Quanto custa? – alguém quis saber.
- Só vinte mil-réis – respondeu Vovô. – Uma pechincha!
- Tu ‘tá é doido, véi. Quer tirar as passagens nas costas da gente, é? – insultou alguém.
- Hômi, eu estou usando e venho vendo todos os sensacionais resultados – replicou Vovô, sempre assobiando nos plurais das palavras.
Moacir levantou-se e caminhou de encontro a Vovô já gritando entusiasmado.
- Eu compro, mas abra um aí para eu testar.
- Oxente! Se abrir tem que pagar – defendeu-se o cearense.
- Pago pôrra nenhuma! Comprei um igualzinho a esse aí.
- E quanto custou? Aposto que foi mais de vinte – quis saber Vovô.
- O cabra pedia vinte e cinco (...).
- Num falei? - gritou Vovô.
- (,,,) mas eu acabei comprando dois por dez, fresco! Saiu a cinco reais – revelou Moacir se chateando.
- Não presta – respondeu o outro enquanto o resto da turma gritava se empolgando com o diálogo de ambos. – Traga aí o seu para eu fazer os testes – pediu com a autoridade médica de quem conhece sobre pomadas e produtos naturais.
Moacir voltou à sua mesa, abriu uma bolsa.
- Olhe aqui. Faz cair verruga, cura dor de cabeça, dor nos ossos, dor muscular, pano branco, acne, hemorróidas de botão, tumores cutâneos, cancro mole e cancro duro, bicho de pé, suvaqueira inflamada, catarata (...)
- Vixe! – exclamou Vovô impressionado.
- (...) varicocele, icterícia, se usado como xampu combate a caspa e a seborréia; além de diminuir varizes, combater a dor de veias quebradas. Já se tomando uma colher de chá por dia é bom para combater cálculo renal, gastrite, úlcera estomacal, esofagite, arritmia cardíaca e destempero tripal evitando o nó das tripas. Ajuda na prevenção do afrouxamento furical – concluiu Moacir.
- Deixa eu ver – pediu Vovó já com o frasco na mão, abrindo-o.
Depois derramou um pouco do produto numa das mãos e esfregou-o num dos joelhos.
- Essa merda lá presta, rapaz! Isso aqui foi barato porque o cabra lhe vendeu água poluída do Itans de Caicó. Quer ver mesmo?
- Que conversa! – retorquiu Moacir. – Isso aí é uma beleza.
Daí Vovô abriu sua mala novamente, tirou os óculos, pôs o objeto no rosto, afastou um pouco o frasco e, cheio de pompas, leu a bula nas costas do produto de Moacir.
- Enriquecido com Castanhas do Pará, Castanhas da índia e girinos do Itans! Se o cabra ingerir um troço desses é arriscado cagar um sapo três semanas depois – e completou entre os assobios daquela sua maneira ímpar de falar: – Quer frescar, fresque. Mas não fique frescando não!
Uma gargalhada tomou conta dos Craques presentes. Mas ninguém quis comprar-lhe a pomada com cheiro de “iodex”.
Na TV o Barcelona já vencia o Milan por 3 a 0.

  Moacir e Vovô comparando "as pomadas"


PS.: No final Vovô ainda teve que se explicar com o Auditor Fiscal Welligton sobre as mercadorias sem notas fiscais que tentara comercializar.

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