Sou fã inconteste
de Rubens Lemos, o Filho, um monte de “ista” dos bons, abecedista, jornalista,
grande cronista e dois “ino” singulares, um menino crescido na companhia das
boas letras e um vascaíno tão apaixonado quanto eu.
Daí, pela
afinidade com a paixão por escrever, deu de nos encontrarmos nessas praças
virtuais da Internet, ele cuidando das suas crias literárias já adolescentes,
admiradas e seguidas por um monte de gente e eu, levando pela mão meus bebês
quase recém-nascidos, aprendendo os primeiros passos em busca, não dos
holofotes, tão pouco dos murais dos grandes jornais, mas sim tentando encontrar
a liberdade para a minha própria alma.
Desse encontro um
pouco casual, nasceu a amizade fomentada pela tela do computador e o respeito
de um pelo outro mesmo que, ocupados cada um com a sua família literária, nunca
tenhamos trocado um único aperto de mão, embora tenham sido incontáveis
mensagens trocadas nas ditas praças.
Educado,
simpático e altruísta – outro “ista” do bem, dia desses liberou um dos seus
belos e inteligentes textos para ser publicado por mim. Com a prática uma ideia
brilhou em minha mente e lhe enviei o seguinte e-mail:
“Rubinho, temos
uma pelada toda quinta-feira à noite, lá no Clube da Caixa Econômica, em Pium.
Dessa pelada
nasceu o blog Craques & Craques onde
resenhamos sobre as nossas peladas e outros
assuntos que envolvam não só a cultura do futebol, mas algum outro que
julguemos interessante para uma turma de "senhores" com mais de
quarenta outonos. Quero saber se você aceita que eu copie e poste lá as suas
colunas falando sobre futebol (...)
Aguardo retorno,
Jesus.”
Com a atenção que
só os grandes dispensam ao seu semelhante, ele me respondeu quase em cima da
bucha:
“Claro que é uma
honra liberar os textos.
Meu abraço.
Rubinho.”
Portanto, para
começarmos essa parceria com esse craque das crônicas, que quis o destino
gostasse também de futebol, sendo nessa paixão tão criterioso e seletivo em
seus gostos, quanto na escolha das letras que põe no papel, trago as seguintes
considerações de Rubens Lemos, como disse, o Filho, abaixo postado em letras
azuis.
Apreciem à
vontade. É de embriagar a alma, mas deixando poder dirigir depois. Eis:
Depois de levar
18 foras da menina mais bonita, ele foi perguntar a razão ao amigo e
confidente. Recebeu uma resposta sincera. A franqueza, afinal, é a senha do
cofre da confiança: “Não adianta insistir. Você nunca vai namorar com ela
porque é feio demais. Horrível. É duro te dizer, mas amigo é para falar a
verdade.”
O rejeitado resistiu.
“Você está enganado. O problema deve ser outro. Antipatia gratuita, ela torce
pelo América, eu pelo ABC, incompatibilidade astral. Beleza não é o caso. Minha
mãe sempre me disse que eu sou bonito. Aliás, lindo.” O amigo franco mandou que
ele fosse pentear um macaco e foi embora aos impropérios.
A imprensa
esportiva brasileira é a mãe enganadora dos pobres torcedores. É ela quem
disfarça um futebol assemelhado às bruxas de histórias assombradas feitas para
acalmar meninos rebeldes, de princesa de conto de fada. O futebol brasileiro
não é, faz tempo, o melhor do mundo.
O Brasil deve a
Pelé a liderança unânime e indiscutível. O sublime, o sobrenatural, o
intangível, o inalcançável, extraterreno, o inimitável, foi a razão de uma
pátria inteira calçar chuteiras e um jeito mágico de jogar virar instituição
para se transformar em pó nos tempos de hoje.
O Brasil de Pelé.
O Brasil com Pelé. Pelé disputou quatro Copas do Mundo. Em 1958, 1962, 1966 e
1970. Na primeira delas, tinha 17 anos, era um garoto que colecionava revistas
do Mandrake e estava prestes a servir o Exército. Ganhou a primeira, a segunda,
perdeu a terceira, conquistou a quarta.
Pelé ganhou três,
das quatro Copas do Mundo que jogou. Ninguém está dizendo que antes o Brasil
não teve craques. Produziu gênios do nível de um Fausto, a Maravilha Negra, de
um magistral Domingos da Guia, de um Danilo Alvim, o Príncipe, de um Zizinho,
de um Jair, de um Julinho, de um Leônidas da Silva. De um Ademir Menezes.
Mas a força
espetacular de Pelé colocou o Brasil no patamar parecido com o dos Estados
Unidos no Basquetebol. O esporte ganhou forma e fórmula, ginga e molejo, seus
artifícios tinham parentescos com o samba, a malandragem e a boemia. O passo, o
compasso, a cadência. Pelé consolidou o brasileirismo no futebol.
Com Pelé, o
Brasil mostrou ao planeta estrelas incomparáveis: Djalma e Nilton Santos, os
sagrados laterais, Didi, Garrincha, Gerson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Edu,
Coutinho, Ademir da Guia, Pepe, Paulo César Caju, Dirceu Lopes,Pagão, Toninho,
Mário Sérgio, Amarildo, Almir.
Sem Pelé, o
Brasil foi um menino bonito no fantástico escrete de 1982, com Zico, Sócrates,
Falcão, Cerezo, Zico, Éder, Leandro e Luizinho. Que perdeu pela estoica opção
de atacar e também por enfrentar um timaço que nunca reconhecemos, a Itália de
Antognioni, Cabrini, Zoff, Conti, Scirea, Paolo Rossi era, sim, uma verdadeira
Squadra Azzurra.
Sem Pelé, o
desempenho brasileiro nos outros mundiais perdidos foi ridículo. Em 1974, precisamos
de um gol espírita de Valdomiro contra o risível Zaíre, depois de dois empates
em 0x0 na primeira fase. Uma Copa com o dito supremo futebol planetário
marcando apenas seis gols e levando quatro.
Sem Pelé, o
Brasil foi Campeão Moral na Argentina em 1978 e só passou da primeira fase
porque o Almirante Heleno Nunes, representante da ditadura militar no comando
do futebol, escalou Roberto Dinamite contra a Áustria. O Brasil ganhou de 1x0 e
passou à fase seguinte. Antes, dois empates medíocres contra Suécia e Espanha.
Sem Pelé, em
1986, o Brasil caiu nas quartas-de-final contra a França, com Elzo e Alemão no
meio-campo. Nas oitavas foi eliminado em 1990, com Dunga e Alemão na
meia-cancha, e Maradona fazendo fila indiana de zagueiros até deixar Caniggia fazer
o gol argentino. Nas quartas, caímos em 2006 e em 2010.
Sem Pelé, o mundo
gira em torno de um clubinho fechado. Está todo mundo igual com mais dois
emergentes. O Brasil ganhou em 1994 graças a Romário e em 2002 a Rivaldo e
Ronaldo. A Argentina em 1978 pelos tentáculos da barbárie e em 1986 pelos pés
de Maradona, a Alemanha em 1974 e 1990 e a Itália em 1982 e 2006. A França em
1998 e a Espanha em 2010 foram os intrusos.
Sem Pelé,
nasceram outros luminares: Romário, a citada Geração de 1982, Reinaldo, Careca,
Djalminha, Pita, Geovani, Adílio, Rivaldo, Edmundo, o lacrimoso Bebeto,
Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho até o Barcelona. E pelo mundo afora outros iguais ou
melhores.
Então é balela a
história de que o melhor futebol do mundo ainda é o do Brasil. Foi. Enquanto
Pelé existiu. Com lampejos no tempo do Flamengo de Zico. Agora a categoria é
fulana. Hoje o Corinthians contrata um chinês, o Vasco aposta num atacante
equatoriano, todo clube grande tem um argentino, uruguaio ou chileno razoável.
Quando fomos reis,
a esperança não se resumia à molecagem moicana de Neymar ou à insistência com
ex-jogadores em atividade. Quando fomos reis, Pelé, o monarca, dispensava
Galvões Buenos, ufanistas radicais, vendilhões do patriotismo, estelionatários
da fé do povo. Pelé, por mais que não parecesse, era de verdade.
(Rubens Lemos é
jornalista em Natal).
Agora, querendo
mais, caso não tenham para onde dirigir mesmo, basta que acessem o link http://www.rubenslemos.com.br e
seguir pelas estradas das letras bem escritas por Rubinho, o Lemos menino,
digo, o Filho.

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