quarta-feira, 27 de junho de 2012

Azzurra

Por Rubens Lemos Filho, jornalista



O pênalti cobrado por Pirlo, da Itália, comprovou que se pode jogar futebol a sério brincando como menino. O cabeludo, veterano do título mundial de 2006, domou o jogo e as suas mechas de rapaz nascido em Flero, região da Lombárdia. A Itália merecia ter vencido a Inglaterra com a bola em jogo. Pirlo encestou sua cobrança ao estilo dos sábios.
Um jogo terminado em 0x0 pode ser muito melhor que uma pelada de compadres de final 8x1 ou 7x2. Itália e Inglaterra não construíram qualquer épico, mas a superioridade da Azzurra só não foi 100% graças à belíssima defesa do goleiro Buffon logo no início da partida.
A Itália quando entra de patinho feio em qualquer campeonato, acaba de cisne. Ou chegando aos melhores pontos do lago, aos cantos da contemplação ou dos mergulhos indescritíveis.
Brasileiros de minha época renegam a Itália pela vitória sobre a maravilhosa seleção de Telê Santana em 1982, sem dúvida a última sinfônica nacional. A Itália venceu um jogaço naquele 5 de julho no Estádio Sarriá em Barcelona.
Seu técnico, Enzo Bearzot, contava com um ótimo time a começar do veteraníssimo goleiro Dino Zoff, aos 41 anos de idade naquele jogo. Bearzot escalou a Itália que tinha Scirea na defesa, Gentile caçando Zico, Cabrini, um mago na lateral-esquerda, Tardelli e Antognioni brilhando no meio-campo, Conti e Graziani pelas pontas e o matador Paolo Rossi.
Brasileiro não entende é que Bearzot não convocou nem escalou Valdir Peres de goleiro quando Telê esnobou dois muito melhores: Raul do Flamengo e Leão, do Grêmio. Pacheco não aceita é que Bearzot não levou Serginho Chulapa e nem deixou Roberto Dinamite assistindo à derrota das cadeiras, até fora do banco de reservas.
Para quem gosta de comparar futebol à vinditta siciliana, em 1994, Romário tratou de botar feijoada na pizza deles. Roberto Baggio, que cresceu em Caldógno, pequenina cidade, copiando cobranças de falta batidas por Zico no Maracanã, chutou aos céus norte-americanos o tetra para felicidade nossa.
Antes, teve até a grotesca "vitória moral" de 1978, em que o time todo torto de Cláudio Coutinho terminou invicto a Copa do Mundo e com um patético terceiro lugar após vencer a Itália de 2x1, de virada, golaços de Nelinho e do saudoso Dirceuzinho. Moral porque o Peru entregou seu jogo a Argentina e eliminou o Brasil.
A classificação da Itália permite aos apaixonados por futebol mais do que pela força do sectarismo ufanista, a chance de acompanhar, olhos vidrados, a um reencontro entre as duas escolas que sempre dominaram a Europa.
Itália e Alemanha conservam a tradição dos primeiros tempos, juntas, conquistaram sete Copas do Mundo e travaram um dos mais emocionantes duelos de todos os tempos: A semifinal da Copa do Mundo de 1970.
A Itália ganhou de 4x3 um jogo cheio de sobressaltos e mudanças no placar e garantiu seu lugar na decisão no Estádio Azteca, quando tomou, aí, sim, o grande samba lelê ludopédico: Aquele desfile de 4x1 que a Escola Passista de Pelé, Rivellino, Gerson, Tostão e Jairzinho comandou em na Cidade do México, fazendo voar sombreiros ao mundo.
Itália x Alemanha quer dizer uma semifinal para o acervo do futebol. Sempre é assim quando gigantes se enfrentam, desde Matar ou Morrer, com Gary Cooper de solitário xerife no faroeste ancestral e mais inesquecível pela beleza de Grace Kelly.
Itália x Alemanha será um jogão. A Inglaterra se fechou com uma Suiça, retrancada e covarde, um filmeco de terror, seria presa fácil para o mais forte time até agora, o chucrute.Espanha x Portugal, outro pega. Falta-lhe o charme flamenco de 2008 e 2010, mas a Espanha é melhor.

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