Craques, há três anos Jesus de Miúdo comprou aquele
que ele acreditava ser o seu último par de chuteiras e viveu uma experiência anotada
no papel.
Nós queremos reproduzir esse texto. Segundo o autor
da crônica, ele agora tem certeza que aquele par de chuteiras - aliás, ele o usa
nas peladas - não será mais o último. Afinal, encontrou nos Craques &
Craques uma família, uma turma de amigos e augura continuar por muito tempo
pisando o Tapete Verde da Realeza dos Craques & Craques, na Pelada do Clube
da Caixa, em Pium. Que outros pares de chuteiras venham, para ele e para nós.
Vamos à crônica? Rambora! Eis a obra, em azul para
melhor destaque:
Meu primeiro par de chuteiras
Por Jesus de Miúdo
Corria o ano de 1983. Terças e quintas-feiras, para
uma turma de vinte e dois meninos, entre eles eu, eram dias especiais.
Acordávamos às quatro horas da manhã e saíamos uns acordando os outros, para
treinarmos futebol no velho Pedro Celestino, sem muro, ainda cercado pelo
avelós (Euphorbia Tirucalli), e com seus cascalhos em meio ao campo de terra.
Ainda lembro da primeira vez que acordei de
madrugada. Sem relógio que pudesse consultar e sem paciência de ficar esperando
pelos toques da hora no relógio da igreja, meti um par de tênis nos pés e corri
para a rua. Bem em frente da barbearia, Zé Neves, que também era vigilante
noturno, me pôs de volta para casa. Era apenas uma hora da manhã, e embora eu
tenha retornado seguindo as ordens dele, em casa não pude mais adormecer,
tamanha era a minha ansiedade. Mas fiquei acordado ouvindo, de meia em meia
hora, o relógio da matriz que ia me informando do tempo. Nem bem ouvi o toque
das quatro e meia e voltei à rua. Agora acompanhado dos outros meninos que iam
surgindo dos becos.
Fazíamos parte do time da Igreja Realidade em
Cristo, do missionário Milton que subia para o campo tomando conta daquela ruma
de menino, cada um conversando alto, dizendo uma lorota, todos ao seu redor.
Era fantástico!
Descobrimos que de tênis era quase impossível jogar
futebol naquele campo, e começamos a planejar a compra das chuteiras, cada um a
sua. Aderildo de Galega de Ambrósio foi o primeiro que chegou para treinar com
uma chuteira de verdade. Nós, os outros, meio despeitados com a aquisição,
inventamos de chateá-lo pela feiúra da peça. Realmente não era bonita a
chuteira de “Derildo”, como o chamávamos. Tinha o bico quadrado à forma dos
velhos sapatos “cavalos de aço”, sucesso no passado. Mas foi com uma delas que
Derildo empurrou a bola para o fundo das redes marcando o primeiro gol, em
nossa estréia lá em Bulhões, num jogo perdido por 3 a 1. Nunca fui um bom
jogador de futebol, era reserva no “Time dos Crentes”, como era mais conhecido
o Corinthians – as camisas vieram de São Paulo. Também nunca sonhei em ser um
Pelé no futebol. Para mim, bastava ser um Miúdo de Norinha. Entretanto, nem
isso consegui ser.
Mas o meu primeiro par de chuteiras... Vendi todos
os litros secos do muro lá de casa, cabos de vassouras, latas velhas e outros
abandonos entraram no rol de produtos vendidos para a aquisição do meu primeiro
par de chuteiras. Vendi a safra de limões do nosso muro, vendi uma coleção de
revistas do Capitão América, vendi dois times de botão, vendi alguns chaveiros,
a coleção de notas de cigarro se foi... Mas ainda assim, tudo quanto apurei, só
deu para comprar um par de Kichutes na banca de Chico Doido, que ficava em
frente da casa de Silvino Nunes, ao lado da banca de Chico Coração, na feira do
sábado. Como as coisas eram difíceis antigamente!
Dois anos depois, no Natal de 1985, comecei a
trabalhar lá no Armarinho de Luzia de Chicó, na esquina da Rua Major Hortêncio
com a Travessa Aurélia Irene, que na época tinha outro nome, esquecido agora,
mas levemente lembrado como Rua Da Saudade. Ganhava 150.000 cruzeiros. Lembro
quando recebi das mãos de Luzia o meu primeiro salário. Não me continha de
felicidades. Corri certinho para a loja do meu “tio” Zé Sobrinho. Com a
satisfação de quem compra e paga, “provei” e comprei o meu primeiro par de
chuteiras. Eu tinha 14 anos de idade.
Era preto, com solado amarelo de travas baixas em
número de nove, sendo quatro atrás e cinco na frente, cadarços pretos que se
enfiavam por ilhoses de ferro. Possuía três listras brancas nas laterais
imitando a marca Adidas, mas tudo quanto tinha no solado era apenas o número
37, do tamanho, e as letras “RS”, pintadas também na parte de trás, na altura
do calcanhar, e na pequena lingüeta de proteção ao peito do pé. Veio numa caixa
sem muitas inscrições, sendo o tamanho marcado de esferográfica e um carimbo
com o nome da cidade de onde vinha. Era feito no Rio Grande do Sul,
confeccionado num couro grosso, costurado à mão, duro e sem conforto algum,
mas, muitos calos depois, se ajustava aos meus pés como que feito sob medida
para os próprios fosse.
Foi com aquelas chuteiras que meu pai jogou pela
última vez, num jogo festivo que não lembro o quê comemorava.
Muito tempo joguei com aquele par de chuteiras, até
que as travas do seu solado ficaram lisas e quase desapareceram. Então, já
trabalhando no Banco do Brasil, comprei um par da marca Adidas, original.
Várias coisas mudaram de lá para cá. O missionário
Milton foi enviado a outras terras e o “Time dos Crentes” acabou. Embora o
campo ainda seja de terra e cheio de pedras pelo meio, o velho Pedro Celestino
recebeu sua muralha. Temos outro campo na cidade e esse é até gramado... Meu
“tio” Zé Sobrinho fechou as portas e, aposentado, migrou para a capital. Alguns
daqueles meninos saíram da nossa terra, e até Derildo foi embora de Acari
também... Eu já nem jogo mais futebol com tanta freqüência.
Semana passada Oswaldinho Galvão me convidou para
uma pelada que se joga nas segundas-feiras em Natal. “Só tem velho”, ele me
garantiu. Há dois anos sem jogar futebol, me descobri sem um par de chuteiras.
Corri Acari em busca de um. Fui encontrar na loja de Altair de Dodó. Com a
satisfação de quem compra e paga, provei e comprei.
É vermelho, com solado branco de travas altas em
número de quatorze, sendo quatro atrás e dez na frente, cadarços vermelhos que
se enfiam por orifícios abertos no próprio couro. Possui várias listras brancas
nas laterais, mas tudo quanto tem no solado é apenas o número 38, do tamanho, e
as letras “JR”, grafadas em alto relevo também na parte de trás, na altura do
calcanhar, e na lingüeta que dobra indo de encontro aos dedos.
Veio numa caixa bacana, colorida, cheia de dicas
escritas numa linguagem técnica orientando como melhor cuidar das chuteiras
para a sua conservação. É feito em Caicó, confeccionado num couro sintético,
todo industrializado, amaciado e bastante confortável. Sei que não me fará
calos, pois se ajusta aos meus pés como que feito sob medida para os próprios.
Sensação estranha tomou conta de mim quando cheguei
em casa com as chuteiras. Sentei-me no sofá e fiquei olhando para aquele objeto
em minhas mãos. Virei de um lado para o outro, apreciei o brilho do seu
material sintético, a leveza e a perfeição das costuras, todas feitas em
máquinas. Calcei o meu pé esquerdo, amarrei com força o cadarço, bati as travas
contra o cimento do chão da minha sala e, enquanto rodava a outra de um lado
para o outro em minhas mãos, lembrei-me das dificuldades passadas para a
aquisição do meu primeiro par de chuteiras, do menino bem franzino desfilando
sozinho fechado em seu quarto, olhando para os pés calçados, com um sorriso no
rosto e sentindo o pisar estranho por sobre as travas daqueles calçados.
Voltando o pensamento para o presente, me questionei em silêncio: Quanto tempo
eu jogarei com esse par de chuteiras?
Lembrando do meu primeiro par de chuteiras,
descalcei-me e segurei ambas ao mesmo tempo. Com uma emoção diferente, misto de
sentimentos variados que não sei descrevê-los, percebi que ali estava, em
minhas mãos, aquele que será o meu último par de chuteiras. Suas travas não se
desgastarão tanto... A não ser que o meu filho resolva usá-las um dia.
Na publicação original, em seu fotoblo ( www.acaridomeuamor.nafoto.net ), Jesus de Miúdo ainda acrescentou "Essa publicação eu quero dedicar aos melhores jogadores que vi jogar em Acari, de Acari e por Acari: Chaguinha de Pilóia, Zé Velho de Zé Mariano, Binha de Napin, Neguin Oscar, Tel de Zé Mariano, Mário de Zélia e, especialmente, ao meu amigo Adriano de Auta, moleque que, como eu, acordava nas madrugadas de terças e quintas-feiras no longínquo ano de 1983, para jogar bola no velho Estádio Pedro Celestino, ainda cercado por seus aveloses. Foi ele, Adriano de Auta, quem marcou o primeiro gol na inauguração do muro em alvenaria."
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