terça-feira, 13 de março de 2012

Uma crônica: Meu primeiro par de chuteiras


Craques, há três anos Jesus de Miúdo comprou aquele que ele acreditava ser o seu último par de chuteiras e viveu uma experiência anotada no papel.
Nós queremos reproduzir esse texto. Segundo o autor da crônica, ele agora tem certeza que aquele par de chuteiras - aliás, ele o usa nas peladas - não será mais o último. Afinal, encontrou nos Craques & Craques uma família, uma turma de amigos e augura continuar por muito tempo pisando o Tapete Verde da Realeza dos Craques & Craques, na Pelada do Clube da Caixa, em Pium. Que outros pares de chuteiras venham, para ele e para nós.
Vamos à crônica? Rambora! Eis a obra, em azul para melhor destaque:

Meu primeiro par de chuteiras
Por Jesus de Miúdo

Corria o ano de 1983. Terças e quintas-feiras, para uma turma de vinte e dois meninos, entre eles eu, eram dias especiais. Acordávamos às quatro horas da manhã e saíamos uns acordando os outros, para treinarmos futebol no velho Pedro Celestino, sem muro, ainda cercado pelo avelós (Euphorbia Tirucalli), e com seus cascalhos em meio ao campo de terra.
Ainda lembro da primeira vez que acordei de madrugada. Sem relógio que pudesse consultar e sem paciência de ficar esperando pelos toques da hora no relógio da igreja, meti um par de tênis nos pés e corri para a rua. Bem em frente da barbearia, Zé Neves, que também era vigilante noturno, me pôs de volta para casa. Era apenas uma hora da manhã, e embora eu tenha retornado seguindo as ordens dele, em casa não pude mais adormecer, tamanha era a minha ansiedade. Mas fiquei acordado ouvindo, de meia em meia hora, o relógio da matriz que ia me informando do tempo. Nem bem ouvi o toque das quatro e meia e voltei à rua. Agora acompanhado dos outros meninos que iam surgindo dos becos.
Fazíamos parte do time da Igreja Realidade em Cristo, do missionário Milton que subia para o campo tomando conta daquela ruma de menino, cada um conversando alto, dizendo uma lorota, todos ao seu redor. Era fantástico!
Descobrimos que de tênis era quase impossível jogar futebol naquele campo, e começamos a planejar a compra das chuteiras, cada um a sua. Aderildo de Galega de Ambrósio foi o primeiro que chegou para treinar com uma chuteira de verdade. Nós, os outros, meio despeitados com a aquisição, inventamos de chateá-lo pela feiúra da peça. Realmente não era bonita a chuteira de “Derildo”, como o chamávamos. Tinha o bico quadrado à forma dos velhos sapatos “cavalos de aço”, sucesso no passado. Mas foi com uma delas que Derildo empurrou a bola para o fundo das redes marcando o primeiro gol, em nossa estréia lá em Bulhões, num jogo perdido por 3 a 1. Nunca fui um bom jogador de futebol, era reserva no “Time dos Crentes”, como era mais conhecido o Corinthians – as camisas vieram de São Paulo. Também nunca sonhei em ser um Pelé no futebol. Para mim, bastava ser um Miúdo de Norinha. Entretanto, nem isso consegui ser.
Mas o meu primeiro par de chuteiras... Vendi todos os litros secos do muro lá de casa, cabos de vassouras, latas velhas e outros abandonos entraram no rol de produtos vendidos para a aquisição do meu primeiro par de chuteiras. Vendi a safra de limões do nosso muro, vendi uma coleção de revistas do Capitão América, vendi dois times de botão, vendi alguns chaveiros, a coleção de notas de cigarro se foi... Mas ainda assim, tudo quanto apurei, só deu para comprar um par de Kichutes na banca de Chico Doido, que ficava em frente da casa de Silvino Nunes, ao lado da banca de Chico Coração, na feira do sábado. Como as coisas eram difíceis antigamente!
Dois anos depois, no Natal de 1985, comecei a trabalhar lá no Armarinho de Luzia de Chicó, na esquina da Rua Major Hortêncio com a Travessa Aurélia Irene, que na época tinha outro nome, esquecido agora, mas levemente lembrado como Rua Da Saudade. Ganhava 150.000 cruzeiros. Lembro quando recebi das mãos de Luzia o meu primeiro salário. Não me continha de felicidades. Corri certinho para a loja do meu “tio” Zé Sobrinho. Com a satisfação de quem compra e paga, “provei” e comprei o meu primeiro par de chuteiras. Eu tinha 14 anos de idade.
Era preto, com solado amarelo de travas baixas em número de nove, sendo quatro atrás e cinco na frente, cadarços pretos que se enfiavam por ilhoses de ferro. Possuía três listras brancas nas laterais imitando a marca Adidas, mas tudo quanto tinha no solado era apenas o número 37, do tamanho, e as letras “RS”, pintadas também na parte de trás, na altura do calcanhar, e na pequena lingüeta de proteção ao peito do pé. Veio numa caixa sem muitas inscrições, sendo o tamanho marcado de esferográfica e um carimbo com o nome da cidade de onde vinha. Era feito no Rio Grande do Sul, confeccionado num couro grosso, costurado à mão, duro e sem conforto algum, mas, muitos calos depois, se ajustava aos meus pés como que feito sob medida para os próprios fosse.
Foi com aquelas chuteiras que meu pai jogou pela última vez, num jogo festivo que não lembro o quê comemorava.
Muito tempo joguei com aquele par de chuteiras, até que as travas do seu solado ficaram lisas e quase desapareceram. Então, já trabalhando no Banco do Brasil, comprei um par da marca Adidas, original.
Várias coisas mudaram de lá para cá. O missionário Milton foi enviado a outras terras e o “Time dos Crentes” acabou. Embora o campo ainda seja de terra e cheio de pedras pelo meio, o velho Pedro Celestino recebeu sua muralha. Temos outro campo na cidade e esse é até gramado... Meu “tio” Zé Sobrinho fechou as portas e, aposentado, migrou para a capital. Alguns daqueles meninos saíram da nossa terra, e até Derildo foi embora de Acari também... Eu já nem jogo mais futebol com tanta freqüência.
Semana passada Oswaldinho Galvão me convidou para uma pelada que se joga nas segundas-feiras em Natal. “Só tem velho”, ele me garantiu. Há dois anos sem jogar futebol, me descobri sem um par de chuteiras. Corri Acari em busca de um. Fui encontrar na loja de Altair de Dodó. Com a satisfação de quem compra e paga, provei e comprei.
É vermelho, com solado branco de travas altas em número de quatorze, sendo quatro atrás e dez na frente, cadarços vermelhos que se enfiam por orifícios abertos no próprio couro. Possui várias listras brancas nas laterais, mas tudo quanto tem no solado é apenas o número 38, do tamanho, e as letras “JR”, grafadas em alto relevo também na parte de trás, na altura do calcanhar, e na lingüeta que dobra indo de encontro aos dedos.
Veio numa caixa bacana, colorida, cheia de dicas escritas numa linguagem técnica orientando como melhor cuidar das chuteiras para a sua conservação. É feito em Caicó, confeccionado num couro sintético, todo industrializado, amaciado e bastante confortável. Sei que não me fará calos, pois se ajusta aos meus pés como que feito sob medida para os próprios.
Sensação estranha tomou conta de mim quando cheguei em casa com as chuteiras. Sentei-me no sofá e fiquei olhando para aquele objeto em minhas mãos. Virei de um lado para o outro, apreciei o brilho do seu material sintético, a leveza e a perfeição das costuras, todas feitas em máquinas. Calcei o meu pé esquerdo, amarrei com força o cadarço, bati as travas contra o cimento do chão da minha sala e, enquanto rodava a outra de um lado para o outro em minhas mãos, lembrei-me das dificuldades passadas para a aquisição do meu primeiro par de chuteiras, do menino bem franzino desfilando sozinho fechado em seu quarto, olhando para os pés calçados, com um sorriso no rosto e sentindo o pisar estranho por sobre as travas daqueles calçados. Voltando o pensamento para o presente, me questionei em silêncio: Quanto tempo eu jogarei com esse par de chuteiras?
Lembrando do meu primeiro par de chuteiras, descalcei-me e segurei ambas ao mesmo tempo. Com uma emoção diferente, misto de sentimentos variados que não sei descrevê-los, percebi que ali estava, em minhas mãos, aquele que será o meu último par de chuteiras. Suas travas não se desgastarão tanto... A não ser que o meu filho resolva usá-las um dia.

Na publicação original, em seu fotoblo ( www.acaridomeuamor.nafoto.net ), Jesus de Miúdo ainda acrescentou "Essa publicação eu quero dedicar aos melhores jogadores que vi jogar em Acari, de Acari e por Acari: Chaguinha de Pilóia, Zé Velho de Zé Mariano, Binha de Napin, Neguin Oscar, Tel de Zé Mariano, Mário de Zélia e, especialmente, ao meu amigo Adriano de Auta, moleque que, como eu, acordava nas madrugadas de terças e quintas-feiras no longínquo ano de 1983, para jogar bola no velho Estádio Pedro Celestino, ainda cercado por seus aveloses. Foi ele, Adriano de Auta, quem marcou o primeiro gol na inauguração do muro em alvenaria."

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